sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Antes que comece o dia

Ela não sabia se definir bem fisicamente, mas há quem acredite que seus cabelos sejam loiros, um tanto quanto avermelhados, mas loiros. Ela se preocupava mais com a cor das unhas... Vivia metida entre cartas e bilhetes antigos, fazia isso - a princípio - por pura nostalgia, mas como tudo que conforta, vicia. Um vício sim, pros amenizadores pode-se chamar de costume ou mania. Não sabia nem mais o que estava fazendo: lia as mensagens automaticamente sem ao menos recordar os rostos de quem as havia escrito. Tinha tudo organizado em uma caixa linda que ela mesma havia enfeitado com laços de fita colorida e muita purpurina prateada. Não que seja importante saber: tudo estava em ordem cronológica... Talvez tenha deixado assim com o intuito de marcar fatos passados como numa linha do tempo dos livros de História ou por pura e simples organização.
(Não a tornarei protagonista, por isso não descreverei seu parceiro sob o ponto de vista dela.)
Ele tinha um corpo comum, nada excepcional, mas também não era decepcionante. As moças que passavam por ele não o notavam muito, somente passavam - o que certamente o frustrava. Olhos fundos, lábios finos, pele branca e cabelos pretos um pouco lisos. Ah, ele usava óculos, mas era bem discreto. Tinha grande paixão por artes marciais, praticava karatê desde quando conseguiu livrar-se da Academia Oficial de Esportes Aquáticos, que sua mãe o obrigava a frequentar dizendo: "Você precisa nadar, meu filho... Seus pulmões precisam se desenvolver". Sentia-se pleno agora, e sem ter que usar aquela touca que julgava desconfortável e o encabulava na presença das garotas.
Estes dois não tiveram um primeiro encontro emocionante ou nada que mereça ser descrito, eles simplesmente se conheceram há algum tempo e namoram há um tempo um pouco menor que este.
Viviam vidas rotineiras, cercados pelas obrigações de adolescentes empenhados em tudo que podiam, mantinham em suas mentes a ideia de que possuem "tooodo o tempo do muuundo", mas mesmo assim desejavam concluir suas tarefas em cinco minutos.
Frequentavam o mesmo colégio, o mesmo shopping e seus pais eram amigos, o que garatia alguns privilégios, como permissões para viagens e afins.
Suas afinidades não se estendiam muito, ela amava animais, plantas e fotografia; ele nem sabia diferenciar um ganso de um cisne. Eles se davam bem, eram um casal aparentemente feliz. Aparentemente? Talvez mais que isso, talvez forjadamente feliz, mas claro, nenhum dos dois sabia que o outro sabia disso, e era melhor assim.
Questionavam sozinhos se estavam certos em ficar juntos mesmo sem nunca terem sentido aquele amor avassalador que em algum momento de suas vidas destruiu seus corações, e um desejava agradar o outro, por afeto, carinho, até mesmo amor. Um amor frio, acomodado e silencioso. Ela não esperava dele mais nada e isso a machucava quando sua mente parava para refletir sobre essa situção "estável" de seu coração. Ele achava que a tinha em mãos para sempre e também se sentia covarde por imaginar que poderia a qualquer momento se apaixonar por alguém e não conseguir largá-la por pena ou algo assim.
Às vezes ela chorava sozinha, um choro silencioso e secreto, daqueles que apertam fortemente o coração e dá uma certa falta de ar.
Um dia (digo isso assim mesmo, sem montar cenário ou circunstâncias), ela deixou escapar uma ou duas palavras para as quais ele não possuía resposta. Ele tentou não encarar como algo sério ou o fim, só uma reação ao niilismo curriqueiro de seus dias ensolarados. Não a olhou nos olhos.
E então o rapaz, ainda cheio de vida e com o aspecto vibrante dos jovens, não hesita em deixá-la só - mesmo que por curtos minutos. A moça, razoavelmente cega dos feminismos e outras ondas modernas, não o compreende, mas o segue e o chama para que conversem mais... Ele só quer mesmo é dar um abraço nela numa tentativa de fazer com que ela ainda o sinta presente, e, mais tarde telefonar para uns amigos e marcar uma pizza, ou algo assim.

8 comentários:

Lorena disse...

gostei do seu "novo jeito" de escrever, é tão bom quanto seus textos pra chamar a atenção dos leitores para as coisas comuns ou para falar de sentimentos. e eu acho que conheço essa tal menina dos cabelos loiros um tanto quanto avermelhados! rs
muuito bom sua diversificação, adorei de verdade!

Felipe Braga disse...

Sim, exatamente!
Narrativa forte, criando uma "identidade" da escritora.
Você prendeu minha atenção com fatos, sentimentos, enfim, tudo aquilo que uma história madura exige.

Você está de parabéns, Barbie.
Um beijo deste rapaz que te admira.

Bárbara Reis disse...

Praticamente a narração do meu amor pré adolescente. De qualquer forma,me enxerguei plenamente na menina. Acho que há apenas duas diferenças entre nós: a cor dos cabelos e a minha intensidade escorpiana.

Adoro seus textos,xará!
rs

Luma Beatriz Peril disse...

Simplesmente amei esse texto, me prendeu até o fim, *-*

FatoSempalavras. disse...

"um amor frio, acomodado e silencioso" (amei isso)

Certos amores podem estar frios, mas os calafrios que ainda podem causar serão eternos.

Belíssimo, minha querida amiga.

Incontáveis abraços.

Marcelo Victorino disse...

Acho que todo mundo sabe bem o que é isso de estar só por comodidade, ou costume.

Daniela Filipini disse...

Muito bonito mesmo parecendo doloroso.

Juliana Monteiro disse...

Esse texto seu, exatamente esse texto, me prendeu. Não que os outros não me prendam. Mas esse eu tive muita vontade de comentar.
Eu o li com uma vontade diferente, como quando lemos um livro que gostamos muito e achamos muito interessante. Não sei se foi o tema, a forma que foi escrito, simplesmente não sei. Mas tive que vir aqui pra dizer isso. Parabéns Bárbara, de verdade.